Política Diária

Digite para buscar em todos os artigos e notícias.

Política Diária

Vale a pena ler Dois Tratados sobre o Governo, de Locke?

Análise editorial de Dois Tratados sobre o Governo, de John Locke: consentimento, propriedade e direito de resistência, a edição da Martins Fontes e a nota.

Análise editorial da obra, da ficha da edição e de fontes públicas

Foto de Equipe Política DiáriaEquipe Política DiáriaPublicado em 7 min de leitura
CompartilharWhatsAppXLinkedIn
Capa do livro Dois Tratados sobre o Governo, de John Locke, edição Martins Fontes (Selo Martins) 2020

Resumo em 30 segundos

  • 01Dois Tratados sobre o Governo, de John Locke, foi publicado de forma anônima em 1689 (com data de 1690 na folha de rosto) e funda a ideia de que o governo legítimo depende do consentimento dos governados.
  • 02O Primeiro Tratado desmonta a defesa do direito divino dos reis feita por Robert Filmer; o Segundo Tratado trata de estado de natureza, propriedade, sociedade civil e direito de resistência.
  • 03A nota 8,2 premia a profundidade e a atualidade de um clássico e desconta a leitura, pois o Primeiro Tratado é árido, e o rigor, já que a obra silencia ou é ambígua em temas como a escravidão.
Ver Dois Tratados sobre o Governo na Amazon
Neste artigo

Quando alguém afirma que o poder só é legítimo se vier do consentimento dos governados, está repetindo, muitas vezes sem saber, um argumento que John Locke organizou há mais de trezentos anos. Dois Tratados sobre o Governo é uma das obras mais citadas da teoria política moderna e uma das mais frequentemente lidas pela metade. Esta é uma análise editorial do livro, feita a partir da ficha da edição brasileira, de registros públicos sobre a obra e de fontes citadas no texto.

Veredito da redação

É leitura obrigatória para quem quer entender de onde vêm as ideias de governo limitado, direitos individuais e direito de resistência. O Segundo Tratado, mais curto e direto, é o coração do livro e continua influente. O Primeiro Tratado, uma polêmica contra um autor hoje pouco lido, exige paciência. Quem ler com caneta na mão e com as críticas em mente tirará muito proveito.

A nota final é 8,2 em 10. A pontuação julga a qualidade da obra (clareza, profundidade, rigor, atualidade e leitura) e não a posição política do leitor. As críticas feitas ao livro, algumas severas, aparecem em seção própria.

De que trata e como a obra se organiza

Segundo a Wikipedia, a obra foi publicada anonimamente em dezembro de 1689, embora a folha de rosto traga a data de 1690, e Locke só reconheceu a autoria perto do fim da vida. A obra se divide em duas partes. O Primeiro Tratado é um ataque, passagem por passagem, ao Patriarcha de Robert Filmer, que defendia uma monarquia absoluta e hereditária, com poder descendente de Adão. Locke responde que nenhum governo pode ser justificado por direito divino, entre outros motivos porque ninguém consegue demonstrar quem seria o verdadeiro herdeiro de Adão.

O Segundo Tratado apresenta a teoria positiva. Parte de um estado de natureza em que as pessoas são livres e iguais e em que cada uma julga o que a lei natural exige. Como esse arranjo gera conflitos, as pessoas formam a sociedade civil por consentimento, para proteger a vida, a liberdade e os bens. O governo legítimo é aquele que cumpre essa função. A mesma fonte registra que, quando um legislativo tenta apropriar-se dos bens do povo ou submetê-lo a um poder arbitrário, Locke admite que o povo recupere a liberdade e resista.

A estrutura é um dos pontos fortes da obra. O leitor vê, no Primeiro Tratado, a demolição de uma doutrina rival e, no Segundo, a construção de uma alternativa. Essa lógica de tese e resposta ajuda a entender por que o livro marcou tanto o pensamento posterior, inclusive o debate sobre as instituições que o Brasil herdou, discutido em Os Donos do Poder.

Contexto: a Inglaterra do século 17

O livro nasce de uma crise política. Em 1688, o rei Jaime II foi deposto na chamada Revolução Gloriosa e substituído por Guilherme III e Maria II. No prefácio, Locke diz que a obra serve para justificar a ascensão de Guilherme. A Wikipedia observa, porém, que estudos posteriores indicam que boa parte do texto foi escrita antes, em 1679 e 1680, durante a Crise da Exclusão, e revista depois do exílio de Locke na Holanda, a partir de 1683. A datação, estabelecida pelo editor Peter Laslett, é hoje o relato padrão, embora contestada em sua leitura política por outros historiadores.

Esse contexto importa porque evita duas leituras erradas. A primeira trata o livro como um tratado abstrato, solto no tempo. A segunda o reduz a um panfleto de ocasião. Na verdade, é um texto que responde a um problema concreto, o de saber quando um povo pode legitimamente limitar ou destituir um governante, e o faz com argumento filosófico que sobreviveu à ocasião.

O que o livro faz bem

Fundamentação do consentimento. Locke formula com precisão a ideia de que a autoridade política não é natural nem herdada, mas resulta de um acordo entre pessoas livres. Essa ideia sustenta boa parte das constituições modernas, e conhecê-la na fonte ajuda a entender debates atuais sobre representação, mandato e limites do poder.

Direitos antes do Estado. Ao afirmar que vida, liberdade e propriedade existem antes do governo e que este foi criado para protegê-los, o autor oferece uma base para a defesa dos direitos individuais. Essa linhagem alimenta a tradição liberal que aparece em O Caminho da Servidão e em As Seis Lições.

Propriedade e trabalho. A teoria de que a propriedade nasce quando alguém mistura seu trabalho com um recurso comum, com limites como a exigência de deixar o bastante para os outros e a proibição de deixar estragar o que se acumulou, é uma das mais influentes da história do pensamento econômico e jurídico.

Limites e críticas feitas à obra

A crítica mais citada à teoria da propriedade vem do canadense C. B. Macpherson, segundo a Wikipedia. Ele sustentou que Locke abriu caminho para a acumulação ilimitada e para grandes desigualdades, tratando a classe trabalhadora como se não tivesse interesse político próprio. O historiador James Tully discorda e afirma não haver evidência de que Locke defendesse o capitalismo. Outros, como Howard Zinn, argumentaram que o texto ignora desigualdades de propriedade já existentes. O leitor encontra, portanto, um debate vivo entre estudiosos, e não uma conclusão fechada.

Há também a questão da escravidão e dos povos nativos. A mesma fonte descreve o capítulo sobre a escravidão como uma justificativa tão restrita que, na prática, funciona como argumento contra a instituição. Sobre os povos nativos da América, a obra faz referências que são lidas de maneiras diferentes pelos estudiosos. Quem lê o livro deve ter em mente essa tensão, que é objeto de bibliografia especializada.

Por fim, há o problema do formato. O Primeiro Tratado discute com minúcia textos bíblicos e o argumento de Filmer, um interlocutor que a maioria dos leitores não conhece. A discussão é relevante para o contexto, mas cansa quem busca apenas a teoria política geral. Muitos cursos indicam começar pelo Segundo Tratado e voltar ao Primeiro depois.

Vale registrar ainda que a ideia de consentimento levanta perguntas que o livro não resolve por completo, como a de saber em que sentido gerações posteriores consentiram com o pacto original. É um limite filosófico da obra, discutido há séculos, e não uma falha de edição.

A quem serve e a quem não serve

O livro serve a estudantes de direito, ciência política, história e filosofia, a jornalistas que cobrem instituições e a leitores que desejam entender as origens do constitucionalismo. Combina bem com A Democracia na América, que mostra o funcionamento de instituições liberais na prática, e com O Príncipe, que parte de premissas bem diferentes sobre o poder.

Não serve a quem procura uma introdução leve ou um resumo de uma tarde. É um livro denso, de linguagem do século 17, e a tradução exige atenção. Também não serve a quem quer discussão sobre problemas atuais do Brasil: para isso há análises contemporâneas sobre democracia, e o noticiário do Congresso por dentro mostra como as instituições funcionam hoje.

Edição indicada e preço

A edição indicada é a da Martins Fontes, no Selo Martins, 3ª edição de 2020, com ISBN-13 978-85-8063-380-1 e 656 páginas, conforme a página da loja Martins Fontes Paulista. O ISBN também consta na Open Library. A loja listava o preço de R$ 160,77 à vista em 17/10/2026 e marcava o produto como esgotado ou sob encomenda, por isso a disponibilidade deve ser conferida. O nome do tradutor não consta nas fontes consultadas e não foi verificado. A página da Amazon Brasil não abriu para conferência, e o botão usa a busca por ISBN. A compra pelo link gera comissão, sem custo extra ao leitor.

Livros para ler depois

Quem quiser seguir a linhagem pode ir a Reflexões sobre a Revolução na França, de Burke, que defende as instituições herdadas com outro argumento. Para a tradição conservadora contemporânea, há Como Ser um Conservador, de Scruton. Todas as análises estão na lista de resenhas.

Nota final e critérios

A nota é a média simples de cinco critérios, aplicados com a mesma régua a livros de todos os campos. Clareza, 7,0: argumento bem estruturado, mas em linguagem antiga e com digressões. Profundidade, 9,5: poucas obras formulam tão bem as bases do governo limitado.

Rigor e fontes, 8,5: raciocínio sistemático e diálogo direto com o adversário, embora com temas ambíguos. Atualidade, 9,0: consentimento, propriedade e resistência seguem no centro do debate. Leitura, 7,0: o Primeiro Tratado cansa. A média é 8,2.

Veredito final

Capa do livro Dois Tratados sobre o Governo, de John Locke, edição Martins Fontes (Selo Martins) 2020

Vale muito a leitura

Nota 8,2 de 10

Para quem é: Estudantes de direito, ciência política e história e leitores que querem conhecer a fonte original das ideias de governo limitado e consentimento.

Principal ressalva: O Primeiro Tratado discute passagens bíblicas e a obra de Filmer em minúcia, o que o torna árido para o leitor de hoje.

Ver Dois Tratados sobre o Governo na Amazon

Análise detalhada

Capa do livro Dois Tratados sobre o Governo, de John Locke, edição Martins Fontes (Selo Martins) 2020

Dois Tratados sobre o Governo

John Locke

Autor
John Locke
Editora
Martins Fontes (Selo Martins)
Ano da edição
2020
Páginas
656
ISBN-10 (ASIN)
858063380X

8.2/10

Clareza · peso 20%
7.0
Profundidade · peso 20%
9.5
Rigor e fontes · peso 20%
8.5
Atualidade · peso 20%
9.0
Leitura · peso 20%
7.0

Prós

  • Texto fundador da tradição liberal: consentimento, direitos naturais, propriedade e limites ao poder estão formulados com argumento sistemático
  • Mostra o debate de ideias de sua época, ao responder ponto a ponto a defesa do poder absoluto dos reis
  • A edição brasileira tem 656 páginas e reúne os dois tratados, o que permite ver a obra inteira e não só o trecho mais citado

Contras

  • O Primeiro Tratado discute passagens bíblicas e a obra de Filmer em minúcia, o que o torna árido para o leitor de hoje
  • A teoria da propriedade é contestada: críticos como C. B. Macpherson veem nela uma justificativa para a acumulação desigual
  • O tratamento de tema como a escravidão e o lugar dos povos nativos da América é ambíguo e é alvo de debate entre os estudiosos
Ideal para
Estudantes de direito, ciência política e história e leitores que querem conhecer a fonte original das ideias de governo limitado e consentimento.
Preço
R$ 160,77 à vista na loja Martins Fontes Paulista, verificado em 17/10/2026 (produto marcado como esgotado ou sob encomenda); o valor varia, confira na Amazon
Ver Dois Tratados sobre o Governo na Amazon

Resenha editorial baseada na obra, na ficha da edição e em fontes públicasPode conter links de afiliado

Método

Como avaliamos

A nota final é a média simples de cinco critérios, todos com o mesmo peso (20% cada), aplicada com a mesma régua a livros de todos os campos. A nota julga a qualidade da obra, nunca a posição política do autor. Veja a política editorial.

  • Clareza · peso 20%

    O texto se faz entender sem exigir leitura prévia do tema?

    7,0
  • Profundidade · peso 20%

    O livro vai além do óbvio e sustenta a tese com argumento?

    9,5
  • Rigor e fontes · peso 20%

    As afirmações têm base em documentos, dados e notas verificáveis?

    8,5
  • Atualidade · peso 20%

    O conteúdo continua útil para entender o debate de hoje?

    9,0
  • Leitura · peso 20%

    O ritmo, a edição e a tradução ajudam a chegar ao fim?

    7,0
  • Nota final (média)8,2 / 10
Foto de Equipe Política Diária

Quem escreveu

Equipe Política Diária

Redação da Política Diária

A equipe da Política Diária escreve para quem quer entender a política brasileira e internacional sem torcida. Cada texto parte de fontes primárias (Diário Oficial, Câmara, Senado, STF, TSE, organismos internacionais e veículos de imprensa identificados) e é escrito em português claro, separando fato de opinião.

Perguntas frequentes

Vale para quem quer conhecer a origem das ideias de consentimento, direitos naturais e governo limitado. É um livro denso, com um Primeiro Tratado árido. Muitos leitores começam pelo Segundo Tratado, que é a parte mais conhecida e mais direta da teoria política de Locke.

Democracia e Instituições

Leia também

Mais em Democracia e Instituições →

Próximo artigo

Próximo artigo →Democracia e Instituições

O que A Democracia na América, de Tocqueville, ensina hoje

Análise editorial de A Democracia na América, de Tocqueville: a tese sobre igualdade e liberdade, as críticas feitas à obra, a edição integral da Edipro e a nota.

15 de out. de 2026 · 7 min de leitura