PF indicia Vorcaro e mais 14 por fraudes ligadas ao BRB no caso Master
Relatório da Polícia Federal no Inquérito 5.026 aponta perdas de R$ 2,7 bilhões e pede mais 60 dias ao STF. Indiciamento não é denúncia nem condenação; defesa nega fraude.

A Polícia Federal (PF) indiciou na quarta-feira (28) o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e outros 14 investigados por fraudes financeiras que envolvem o Banco Regional de Brasília (BRB), banco público do Distrito Federal. Segundo a Agência Brasil, as irregularidades foram apuradas na primeira fase da Operação Compliance Zero. Entre os indiciados estão também o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master.
De acordo com o relatório da PF, citado pela agência, todos foram indiciados por gestão fraudulenta de instituição financeira, organização criminosa e lavagem de dinheiro. A corporação enviou o documento à Procuradoria-Geral da República (PGR) e pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) mais 60 dias de investigação, para concluir exames periciais pendentes e apresentar um relatório complementar. Indiciar é o ato em que a polícia aponta alguém como provável autor de um crime; quem decide se há denúncia é o Ministério Público, e quem decide se há condenação é a Justiça.
O que diz o relatório da PF
O texto atribui a Vorcaro "participação pessoal, reiterada e diretiva" nas operações com carteiras de crédito irregulares do Banco Master que causaram prejuízos ao BRB. Na avaliação da PF, ele "ocupava o centro decisório da estrutura examinada" e era "o principal beneficiário econômico" das operações destinadas a obter liquidez para o banco. As frases são da polícia, e não de uma decisão judicial.
O prejuízo já apurado, segundo os investigadores, é de cerca de R$ 2,7 bilhões. A PF afirma que se trata de "perdas já formalizadas e reconhecidas", e não de uma estimativa abstrata. Parte desse valor viria de carteiras de crédito inexistentes registradas em nome da Tirreno, empresa descrita como de fachada e operada pelo Master, que fez transações com o BRB. Vorcaro está preso desde março deste ano, informa a Agência Brasil, e está custodiado no presídio da Papudinha, no Distrito Federal.
Os 15 indiciados e os núcleos descritos
Segundo o Poder360, o relatório parcial foi elaborado no Inquérito 5.026, que trata da tentativa de venda do Master para o BRB e tramita no STF. A lista inclui executivos do Master, dirigentes do BRB, pessoas ligadas à Tirreno e um advogado apontado como participante da estruturação jurídica das operações. A PF divide os envolvidos em núcleos funcionais: o estratégico, com Vorcaro e Paulo Henrique Costa, e outros ligados às áreas executiva e financeira, à formação das carteiras, à parte jurídica e à organização dos documentos.
O relatório descreve, segundo o Poder360, que cerca de R$ 7 bilhões vinculados às operações atribuídas à Tirreno teriam permanecido contabilizados em contas internas do próprio Master, sem transferência financeira compatível com a titularidade formal. Também aponta indícios de documentos produzidos ou completados depois das datas formais, como cédulas de crédito assinadas depois e procurações geradas em lote. E afirma que o BRB seguiu comprando carteiras mesmo com alertas internos sobre documentação, inadimplência e conciliação: mais de R$ 5 bilhões em novas aquisições teriam sido aprovados depois de problemas relevantes já identificados.
O que dizem os indiciados
A Agência Brasil informou que buscava contato com as defesas. O Poder360 lembra que Vorcaro já havia chamado de "narrativa fantasiosa" a alegação de fraude, em depoimento anterior, e dito que as operações com o BRB foram "negócios absolutamente lícitos", baseados em decisões técnicas e colegiadas das instâncias de governança das duas instituições, "sem gerar qualquer prejuízo ao BRB". Os demais indiciados não tiveram posicionamento registrado nas reportagens consultadas. Até uma decisão judicial, todos seguem presumidos inocentes.
Contexto: as fases da Compliance Zero
A Operação Compliance Zero foi deflagrada em 18 de novembro de 2025, com a prisão de Vorcaro no dia anterior, segundo o Poder360. O caso passou a tramitar no STF em dezembro de 2025, inicialmente sob o ministro Dias Toffoli, que deixou a relatoria em 12 de fevereiro; o ministro André Mendonça assumiu o inquérito. Desde então a PF fez outras fases, entre elas a que prendeu Paulo Henrique Costa, em 16 de abril, e as que atingiram figuras políticas de diferentes partidos, como o senador Ciro Nogueira (PP-PI), em maio, o ex-governador Cláudio Castro (PL-RJ), também em maio, e o senador Jaques Wagner (PT-BA), em junho, que foi alvo de medidas cautelares. Ser alvo de busca ou de medida cautelar não equivale a ser indiciado ou acusado, e nenhum deles consta da lista de 15 desta etapa.
Na quarta-feira, o relatório parcial se limitou à parte do esquema que envolve o BRB. A PF ressalva, segundo o Poder360, que há diligências pendentes: individualizar a conduta das equipes operacionais dos bancos, concluir análises bancárias, fiscais e patrimoniais e examinar o material apreendido. O Poder360 também registra que Vorcaro entregou uma proposta de delação premiada, cuja análise pelo ministro do STF deve levar semanas.
Por que isso importa
O BRB é um banco controlado pelo governo do Distrito Federal. Perdas de R$ 2,7 bilhões em uma instituição pública, se confirmadas, afetam o patrimônio do banco e podem ter reflexo nas contas do governo local, que é o acionista controlador. O caso Master, por sua vez, já passou pelo Banco Central, pelo Tribunal de Contas da União e pelo STF, e cada órgão olha uma parte: a PF investiga crimes, o BC fiscaliza e liquida instituições financeiras, o TCU examina a atuação do BC. Para entender a diferença entre essas esferas, vale ler a notícia sobre como o TCU aprovou as contas do Banco Central de 2025 enquanto o caso Master segue em processo separado.
O indiciamento também mostra como funciona o rito. A PF encerra uma etapa e envia o relatório à PGR, que decide se apresenta denúncia ao STF. Se a denúncia for oferecida, o tribunal precisa recebê-la para que os indiciados virem réus. Só depois vêm a instrução do processo e o julgamento. Cada uma dessas fases pode levar meses, e o próprio pedido de prorrogação de 60 dias indica que a investigação ainda não está encerrada.
O que observar a seguir
O primeiro ponto é a decisão do STF sobre a prorrogação de 60 dias solicitada pela PF e a entrega do relatório complementar com os laudos periciais. O segundo é a posição da PGR sobre uma eventual denúncia contra os 15 indiciados. O terceiro é a análise da proposta de delação de Vorcaro, que, segundo o Poder360, deve levar semanas. Há ainda o pedido da defesa para que Mendonça analise a soltura do ex-banqueiro, tema citado entre as reportagens relacionadas da Agência Brasil, sem decisão informada até a publicação.
O caso corre em paralelo à agenda do Supremo, que nesta semana tratou de outros temas, como a triagem de petições na Corte e a vaga em aberto no tribunal. Outra investigação da PF com o STF, desta vez sobre o senador Flávio Bolsonaro, está resumida em PF envia ao STF caso sobre Flávio e Willer Tomaz. No Congresso, a execução do Orçamento também envolve estatais e fiscalização, como mostra a cobertura dos créditos dos PLNs 33, 34 e 35.
Quem acompanha o noticiário político no período pós-eleitoral encontra os resultados, as pesquisas e o calendário no painel Eleições 2026. Informações sobre boatos que circulam sobre o caso podem ser conferidas em Checagem, onde cada verificação traz o veredito e o número de fontes consultadas.
Fonte original
Agência Brasil
agenciabrasil.ebc.com.br
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Quem escreveu
Equipe Política Diária
Redação da Política Diária
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