Senado terá 18 mulheres em 2027, recorde; Câmara chega a 109
Eleição de 4 de outubro eleva a bancada feminina para 22% do Senado e 21% da Câmara. Especialistas apontam o peso dos partidos e o recorde de 12 eleitas na Casa.

O Congresso Nacional que tomará posse em fevereiro de 2027 terá o maior número de mulheres da sua história. Segundo reportagem da Agência Senado, publicada em 16 de outubro, o Senado passará a ter 18 senadoras, o equivalente a 22% das 81 cadeiras, contra 11 na legislatura atual, iniciada em 2023.
Na Câmara dos Deputados, serão 109 deputadas, cerca de 21% das 513 cadeiras, contra 91 em 2023. A reportagem registra ainda que 12 mulheres foram eleitas para o Senado em uma única eleição, o que ela descreve como recorde. Os números vêm das eleições de 4 de outubro, que renovaram toda a Câmara e 54 das 81 vagas do Senado.
O que os números mostram
Dos dois lados do Congresso, a bancada feminina cresce, mas segue longe da fatia de mulheres na população brasileira, que a Agência Senado estima em cerca de 51%. Com 22% no Senado e 21% na Câmara, as mulheres ocuparão aproximadamente um quinto das cadeiras.
O Distrito Federal será a primeira unidade da federação com as três vagas do Senado ocupadas por mulheres. Damares Alves (Republicanos) terá a companhia de Michelle Bolsonaro (PL) e Bia Kicis (PL), eleitas em 4 de outubro. As duas novas senadoras do DF estão entre as 12 eleitas na Casa nesta eleição.
Para quem quer ver o conjunto do resultado, o painel de Eleições 2026 reúne os dados do TSE com fonte e data, e a notícia sobre as maiores bancadas da Câmara e do Senado detalha a divisão por partido.
Como o Brasil chegou até aqui
A história da presença feminina no Legislativo é recente. Segundo a Agência Senado, a primeira deputada federal foi Carlota Pereira de Queirós (SP), eleita em 1933. As mulheres permaneceram em número marginal na Câmara até 1987, quando 26 delas tomaram posse.
No Senado, Eunice Michiles (Arena-AM) assumiu em 1979 e Laélia de Alcântara (PMDB-AC) em 1982, ambas como suplentes, depois da morte dos senadores titulares. As primeiras mulheres eleitas diretamente para a Casa foram Júnia Marise (PRN-MG) e Marluce Pinto (PTB-RR), em 1991.
As regras eleitorais também mudaram ao longo do tempo. Em 1997, a Lei Geral das Eleições estabeleceu que os partidos devem apresentar ao menos 30% de candidatas nas eleições proporcionais, ou seja, para vereador, deputado estadual, distrital e federal. Os partidos haviam interpretado o verbo "reservar" como uma obrigação sem efeito prático, e em 2009 a lei passou a falar em "preencher" as vagas.
Em 2022, a Emenda Constitucional 117 passou a exigir que os partidos destinem ao menos 30% do tempo de rádio e TV e dos recursos de campanha às candidatas.
Comparação internacional
A reportagem cita o ranking da União Interparlamentar (IPU), com base nos resultados de 2022. Nele, a Câmara dos Deputados do Brasil ocupa a 138ª posição entre 183 países, e o Senado, a 62ª entre 79. Em outros países da região, a proporção é maior: segundo a Agência Senado, cerca de 50% das cadeiras do Senado do México são ocupadas por mulheres, e 47% no da Argentina.
Na própria disputa estadual de 2026, o avanço é mais lento nos cargos de comando. Das 21 chapas eleitas para governo estadual no primeiro turno, 10 tinham uma mulher como vice, mas só uma tinha mulher na cabeça de chapa: Raquel Lyra, em Pernambuco. Nas 12 chapas que disputam o segundo turno em seis estados, quatro são encabeçadas por mulheres e quatro têm mulheres como candidatas a vice. O panorama dos estados está em seis estados e o DF terão segundo turno para governador.
As barreiras apontadas por especialistas
A Agência Senado ouviu duas pesquisadoras, que atribuem o ritmo de avanço, em boa parte, à estrutura dos partidos. A socióloga Vanilda Chaves, pesquisadora de gênero e política, afirma que as mulheres são filiadas e formam a base, mas que presidências, tesourarias e secretarias-gerais, que controlam a estratégia eleitoral e o dinheiro, ficam com homens. Para ela, a presença feminina amplia o debate público e acrescenta temas à agenda legislativa.
A cientista política Mayra Goulart, da UFRJ e coordenadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada, diz que o crescimento da bancada vem de décadas de pressão dos movimentos de mulheres, e não de concessões dos partidos ou do governo. Segundo ela, dirigentes partidários concentram verbas em poucas candidatas ou as desviam para campanhas majoritárias, usando como justificativa uma candidata a vice-governadora.
Goulart observa também que muitas das novas parlamentares são esposas, filhas ou irmãs de políticos tradicionais, o que lhes dá um atalho que mulheres sem essas redes não têm. Para aproximar a representação do peso das mulheres na população, ela propõe o voto proporcional em lista fechada com alternância de gênero, modelo usado na Argentina e no México, mas considera a mudança improvável no Brasil, por resistência de eleitores que desconfiam de partidos fortes e de lideranças personalistas.
Vanilda Chaves nota ainda que a maioria das mulheres eleitas vem de partidos de direita e reflete um eleitorado conservador, o que, na avaliação dela, pede atenção em temas de valores sociais e garantias sociais. É uma avaliação da pesquisadora, e não um dado da eleição. A Agência Senado também lembra que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em consulta de 2020 feita pela então senadora Lídice da Mata, disse que o piso de 30% deveria orientar a composição das direções partidárias, mas como recomendação, e não obrigação. Segundo a reportagem, PT e PSOL estão entre os poucos partidos com paridade de gênero nos órgãos de decisão.
Por que isso importa
A composição do Congresso define quem escreve as leis, vota o Orçamento e participa das sabatinas do Senado para cargos como ministro do STF. Uma bancada feminina maior muda quem ocupa comissões, relatorias e lideranças, que são redesenhadas quando as Casas elegem suas Mesas Diretoras no início da legislatura. Isso não determina como cada parlamentar vai votar: as eleitas pertencem a partidos e posições diferentes, e a análise das duas especialistas ouvidas pela reportagem diverge em pontos importantes.
Para o eleitor, o dado mais concreto é a distância entre o peso das mulheres na população (cerca de 51%) e nas cadeiras do Legislativo (cerca de 20%). Para os partidos, o debate gira em torno de dinheiro e poder interno: como a distribuição dos recursos de campanha e o comando das legendas afetam quem chega competitivo à eleição.
O que observar a seguir
As novas senadoras e as deputadas eleitas tomam posse em fevereiro de 2027. Antes disso, a disputa presidencial entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) será decidida no segundo turno de 25 de outubro, e o resultado influencia a relação do próximo presidente com esse Congresso. As datas das últimas semanas estão no calendário da última semana do segundo turno.
Também vale acompanhar se haverá propostas no Congresso sobre as regras de financiamento e de cotas, como a lista fechada com alternância de gênero defendida por Mayra Goulart. Até aqui, nenhuma tramitação sobre o tema foi confirmada nas fontes consultadas.
Fonte original
Agência Senado
www12.senado.leg.br
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Quem escreveu
Equipe Política Diária
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