Boulos fala em chantagem do mercado e propõe cortar privilégios
Ministro da Secretaria-Geral diz à Folha que ajuste fiscal deve atingir desonerações, supersalários e emendas, e não saúde e educação. O mercado cobra medidas.

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), afirmou em entrevista à Folha de S.Paulo, publicada neste sábado (31), que a pressão do mercado por um ajuste fiscal no quarto mandato do presidente Lula (PT) é uma "chantagem". Segundo o InfoMoney, que resumiu a conversa, ele disse: "Você não pode contrapor uma chantagem de mercado à vontade popular. Isso é anular a democracia".
Boulos defendeu que eventuais cortes de gastos não recaiam sobre saúde, educação e políticas para a população de menor renda. Para ele, o alvo deve ser outro: "O corte que queremos é em privilégios", disse, ao citar "quase R$ 600 bilhões por ano em desonerações fiscais". Ele também mencionou o combate aos supersalários e mudanças nas emendas parlamentares impositivas. A entrevista é uma posição de um integrante do governo, e não uma decisão: o Ministério da Fazenda não anunciou, até a publicação desta notícia, um pacote de corte de despesas.
O que Boulos propõe e o que dizem os números
O ministro apontou três frentes: revisar desonerações fiscais, enfrentar supersalários no serviço público e alterar as emendas parlamentares impositivas, sobre as quais afirmou: "Só aí tem R$ 61 bilhões". Segundo o InfoMoney, o número das desonerações tem respaldo em estimativas do Tribunal de Contas da União (TCU), que calcula os gastos tributários de 2026 em mais de R$ 600 bilhões. Já os R$ 61 bilhões correspondem ao total de emendas previsto no Orçamento de 2026, dos quais R$ 37,8 bilhões são de pagamento obrigatório, de acordo com a mesma reportagem. A diferença importa: o valor citado por Boulos, quando aplicado apenas às emendas impositivas, é menor.
Boulos também disse que a trajetória da dívida brasileira deve ser comparada com a de outras grandes economias e que o país não deve abandonar um projeto nacional de desenvolvimento para atender ao mercado financeiro. As reportagens que repercutiram a entrevista não trazem números dessa comparação.
A dívida e a cobrança do mercado
A discussão acontece em um momento de dívida alta. De acordo com a Folha, citada pelo InfoMoney, a dívida do setor público passou de 71,7% do PIB no fim de 2022 para 82,5% em julho de 2026. Dados do Banco Central indicam 82,9% do PIB em setembro, o equivalente a R$ 11,1 trilhões, estável em relação a agosto, mas com alta de 4,3 pontos percentuais no ano.
Depois da reeleição de Lula, em 25 de outubro, bancos, gestores e agências de classificação de risco passaram a cobrar mais clareza do novo governo. O InfoMoney registra que a Fitch alertou para o aumento da incerteza fiscal e para o risco da dívida, e que o UBS afirmou que investidores devem buscar medidas concretas e quantificadas, apontando a aprovação de medidas fiscais no Legislativo como um dos principais testes. Na ponta dos preços, o Ibovespa caiu 13,88% e o dólar subiu 8,21% a R$ 5,40 no pregão seguinte ao segundo turno.
Por que isso importa
A fala de Boulos expõe uma divergência que tende a marcar o início do novo mandato: de um lado, a defesa de que o ajuste preserve gastos sociais e atinja benefícios tributários e despesas que o ministro considera privilégios; de outro, a cobrança de investidores por medidas quantificadas e aprovadas pelo Congresso. Nenhum dos dois lados está fechado em números. O governo ainda não detalhou quais despesas pretende reduzir nem em quanto.
Qualquer das três frentes citadas depende do Legislativo. Revisar desonerações exige projeto de lei, e alterar emendas impositivas mexe em regras que o próprio Congresso aprovou e que dão a parlamentares controle sobre parte do Orçamento. Esse é um ponto de atrito conhecido entre o Executivo e a Câmara e o Senado. Supersalários, por sua vez, dependem de regulamentação do teto constitucional e envolvem os três Poderes.
Para o leitor, o que muda na prática ainda é incerto. Se o governo optar por revisar desonerações, o efeito recai sobre setores que hoje pagam menos tributos. Se mexer em despesas, o efeito depende de quais áreas forem escolhidas. Por isso, a distância entre o discurso de um ministro e uma medida enviada ao Congresso é o dado a acompanhar.
O que o governo já disse sobre o tema
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, já havia falado sobre a meta fiscal. Em declaração noticiada pela Política Diária, ele disse que o governo vai mudar a lei ou a Constituição para o centro da meta. Também afirmou que o governo deve manter o subsídio a combustíveis em 2027 e que a medida provisória do Imposto Seletivo sairia nos próximos dias, com carga equivalente à do IPI. Esses itens mostram que a agenda fiscal do governo inclui receitas e despesas, e que parte dela passa pelo Congresso, como a alíquota de referência da CBS.
Outros trechos da entrevista, segundo o InfoMoney e a reprodução da Sputnik Brasil, tratam de política. Boulos disse que a prioridade é sustentar o quarto mandato de Lula e que antecipar a sucessão só causa divisão na esquerda. Afirmou que o governo precisará "governar com as ruas e as redes", e não só com articulação institucional. Disse ainda reconhecer divergências com a maioria atual do PSOL e que seu grupo discute os próximos passos nas próximas semanas, sem confirmar saída do partido. Sobre uma eventual disputa pela Prefeitura de São Paulo em 2028, respondeu que seu foco é o próximo mandato presidencial.
O que observar nos próximos dias
Os próximos movimentos a acompanhar são o envio da medida provisória do Imposto Seletivo, a definição do Orçamento de 2027 no Congresso e eventual proposta formal da Fazenda sobre gastos tributários e despesas obrigatórias. A resposta do mercado, medida em juros, câmbio e Bolsa, tende a refletir o que for apresentado de concreto, e não apenas a posição de ministros em entrevistas.
Também cabe acompanhar como o Congresso reage. A composição da próxima legislatura, que começa em 2027, será decisiva para qualquer revisão de benefícios ou de emendas, e as negociações em torno da base de apoio ao governo influenciam o que é aprovável. O painel de Eleições 2026 reúne os resultados oficiais que definiram essa composição.
Por fim, vale separar o que é dado do que é opinião. Os valores de desonerações, emendas e dívida podem ser conferidos nas fontes citadas (TCU, Orçamento, Banco Central). A caracterização da pressão do mercado como "chantagem" é a avaliação de Boulos; investidores e agências de risco, por sua vez, descrevem a cobrança como pedido de clareza sobre o rumo das contas públicas. A Política Diária não adota nenhuma das duas leituras.
Fonte original
InfoMoney
infomoney.com.br
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Equipe Política Diária
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