Itamaraty repudia novas falas de Milei e fala em ingerência externa
Nota do Itamaraty de 20/10 reage a posts do presidente argentino sobre o voto eletrônico e o Judiciário. Brasil segue sem embaixador em Buenos Aires desde agosto.

O Ministério das Relações Exteriores divulgou na terça-feira (20) uma nota de repúdio a novas declarações do presidente da Argentina, Javier Milei, sobre a eleição brasileira. Segundo a Agência Brasil, o Itamaraty classificou as manifestações, desta vez dirigidas ao Judiciário e ao voto eletrônico, como uma "nova e inaceitável tentativa de ingerência externa no processo democrático brasileiro".
De acordo com a reportagem, Milei compartilhou na rede X um trecho da entrevista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao SBT e escreveu que espera que "o último truque de campanha suja não inclua roubar a eleição". Também divulgou um trecho do debate entre Lula e o candidato Flávio Bolsonaro (PL), realizado no domingo (18), e chamou Lula de "autoritário adorado pelos progressistas locais". O segundo turno da eleição presidencial será em 25 de outubro.
O que diz a nota do Itamaraty
Na nota, o ministério afirma que o presidente argentino repete mentiras de quem perdeu as eleições e apoiou o golpe fracassado de quatro anos atrás. Essa é a avaliação do governo brasileiro, e foi assim que a Agência Brasil a registrou. O Itamaraty também reiterou que o sistema de votação do país é "comprovadamente seguro", sem registro de irregularidades, e que a decisão sobre quem governa o Brasil cabe exclusivamente aos eleitores brasileiros no dia 25.
A reportagem não traz resposta do governo argentino à nota até a publicação. Também não informa se o Itamaraty tomará medidas diplomáticas adicionais, como convocação de representantes ou protesto formal por outros canais. Por isso, esta nota se limita ao que está registrado na fonte.
Contexto: relação tensa desde julho
A Agência Brasil lembra que em 26 de julho, durante a convenção do PL que indicou Flávio Bolsonaro candidato à Presidência, Milei chamou Lula de "presidiário" e atacou o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, relator do processo que condenou Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Naquele dia, o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Bitelli, foi chamado de volta a Brasília.
Desde agosto, o Brasil não tem embaixador na Argentina e é representado por um encarregado de negócios, cargo hierarquicamente mais baixo. Segundo a reportagem, o governo brasileiro também determinou que o embaixador argentino deixasse Brasília. O episódio anterior, em que Milei comemorou o resultado do primeiro turno, foi tratado na nota sobre a relação entre Milei e o Brasil, que reúne dados de comércio entre os dois países.
A integração econômica é grande. A Agência Brasil lembra que o Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina, com economias fortemente integradas, em especial nos setores automotivo e industrial. É um dos motivos pelos quais o tom entre os dois governos costuma ser acompanhado de perto por empresas, exportadores e pelo mercado financeiro.
O que significa ingerência externa
O termo usado pelo Itamaraty remete ao princípio de não intervenção nos assuntos internos de outro Estado, que faz parte do direito internacional e da tradição diplomática. Na prática, a fronteira entre opinar e interferir é discutida. Governos costumam defender que dirigentes têm liberdade para comentar a política de outros países, enquanto outros veem em manifestações durante uma campanha em curso um risco de interferir na escolha dos eleitores. A nota brasileira se posiciona no segundo grupo.
Quanto à segurança do voto, o assunto é objeto de verificação constante da Justiça Eleitoral. Boatos sobre as urnas eletrônicas circulam a cada eleição e, quando aparecem, o caminho é a checagem com fontes oficiais, como a que o site mantém na seção de checagem. Sobre o voto eletrônico, a posição do Tribunal Superior Eleitoral é de que o sistema é auditável e seguro, e foi essa a linha repetida pelo Itamaraty na nota.
Por que isso importa
Primeiro, pelo efeito sobre a diplomacia. O Brasil já opera sem embaixador em Buenos Aires há mais de dois meses, e uma nova troca de notas tende a prolongar esse quadro. A normalização da representação, seja qual for o resultado de 25 de outubro, depende de gestos dos dois lados, e a fonte não aponta nenhum deles por ora.
Segundo, pelo ambiente eleitoral. As falas de Milei foram feitas em 20 de outubro, a cinco dias da votação, e a resposta do governo brasileiro vem de um ministério subordinado ao presidente que disputa a reeleição. Por isso é importante separar o que é fato registrado, a nota do Itamaraty e as publicações de Milei, do que é avaliação de cada parte. A campanha de Flávio Bolsonaro não é citada na reportagem como autora das publicações do presidente argentino, e esta nota também não atribui a ela essas declarações.
Terceiro, pelo comércio. Montadoras, produtores de alimentos e transportadoras dos dois países dependem de regras estáveis no Mercosul. Mudanças no clima político podem influenciar negociações, ainda que a fonte não relate nenhuma medida comercial nova até a publicação da reportagem.
O que observar a seguir
Os próximos dias trazem o último debate entre os candidatos, na Globo, na sexta-feira (23), cujas regras estão na nota sobre o formato do confronto, e o calendário final de campanha, resumido em prazos da última semana do segundo turno. Para acompanhar pesquisas e resultados já apurados, o painel Eleições 2026 reúne os números com fonte e data.
Vale observar ainda se o governo argentino responde à nota, se há nova manifestação de Milei antes de domingo e como o Itamaraty tratará a representação em Buenos Aires depois do resultado. A cobertura de política externa com ângulo para o leitor brasileiro continua na página de notícias.
Como fonte, esta nota usa a reportagem da Agência Brasil, publicada em 20 de outubro às 22h23, assinada por Pedro Rafael Vilela. A íntegra da nota do Itamaraty não pôde ser consultada diretamente durante a apuração, e as aspas do ministério vêm da reportagem. As afirmações de cada lado são atribuídas a quem as fez, sem que o site as confirme como fato independente.
Fonte original
Agência Brasil
agenciabrasil.ebc.com.br
Quem escreveu
Equipe Política Diária
Redação da Política Diária
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